Prevenir as perdas, o grande desafio dos supermercadistas em um cenário de crise

Prevenir as perdas, o grande desafio dos supermercadistas em um cenário de crise

Carlos Eduardo Santos*

O varejo brasileiro, assim como outros segmentos, foi intensamente marcado pela retração econômica no país nos últimos anos. Em 2017, a queda nas vendas levou importantes redes ao fechamento de algumas unidades, alternativa que encontraram para manter a rentabilidade da companhia ou não perder tanto faturamento. Já em 2018, o mercado mostrou um ambiente de melhora, embora não tenha recuperado os prejuízos dos anos anteriores.

Créditos: iStock

No setor supermercadista não foi diferente. Em 2017, o segmento faturou R$ 353,2 bilhões, aumento de 4,3% em comparação com 2016. Para este ano, espera-se que o setor cresça em torno de 3%. Se conseguirá atingir esse objetivo, a resposta só deverá ser dada no primeiro trimestre de 2019. Já se sabe, porém, que o brasileiro está consumindo menos e o varejo sente reflexo disso. Nesse caso, para grande parte das companhias, a ordem é cortar gastos e adiar investimentos. E muitas vezes, para o varejista, cortar ou adiar investimentos significar reduzir e até extinguir a área de prevenção de perdas.

Uma importante constatação

As empresas que entraram na crise com foco direcionado para o controle de perdas, sofreram menos e tiveram impacto reduzido na crise e nos resultados. Considerando o faturamento total do varejo em 2017 de R$ 1,52 trilhão, como aponta o IBGE, a perda projetada para todo o varejo restrito foi de R$ 19,58 bilhões. O resultado do índice de perdas obtido em 2017 demonstra uma tendência de queda em comparação com os anos anteriores. Em 2016 o índice foi de 1,32% e em 2015 o resultado foi de 1,4%. Esse cenário confirma o crescimento do investimento em tecnologias e na capacitação dos profissionais, o que culminou no aumento da maturidade das empresas com relação ao tema.

O segmento supermercadista continua sendo o mais afetado nos resultados de perdas do varejo, em razão da complexidade de mix de produtos nas lojas e, principalmente, pela participação de perecíveis que contribuem com praticamente 50% das perdas totais. Outra particularidade é o impacto das perdas na margem de lucro. Analisando a série histórica dos últimos três anos, o índice de perdas foi maior que a margem líquida obtida, como apontam os dados do ranking da Associação Brasileira de Supermercados (Abras).

Existe uma corrente positiva que prefere entender o gerenciamento das perdas como a grande oportunidade para se aumentar a rentabilidade e competitividade. Quando a venda não acontece, pode-se buscar a lucratividade pela redução das perdas. O índice de perdas totais dos supermercados foi de 1,94%, sendo 1,03% referente a perdas conhecidas (quebras operacionais) e 0,91% de perdas desconhecidas (perdas de inventário). Considerando o faturamento em 2017 de R$ 353,2 bilhões, as perdas foram de R$ 6,8 bilhões.

Principais causas de perdas

As principais causas de perdas são distribuídas entre quebras operacionais (46%), furtos (23%, somados os externos e internos), erros de inventário (14%) e erros administrativos (7%), entre outros. Só as quebras operacionais representaram um prejuízo aos supermercadistas de R$ 3,152 bilhões.

Embora sejam as causas mais representativas, as quebras operacionais são variáveis de controle interno. Ou seja, com a implementação de um melhor controle nos processos é possível obter resultados quase que simultâneos à melhoria implementada.

Em primeiro lugar como a principal causa geradora das quebras, temos o vencimento de produtos (31%), cujo impacto foi de R$ 977 milhões descartados para o lixo em 2017 antes da possibilidade de serem vendidos, seja pelo preço referência ou através da aplicação de markdown. Considerar o vencimento como causa geradora de quebras é bem discutível, pois a sua causa raiz pode estar relacionada a apostas comerciais erradas, que geraram excesso de estoque, assim como produção interna acima da capacidade de demanda ou recebimento de produtos muito próximo do vencimento.

Todos esses fatores influenciam diretamente no descarte dos produtos. Um bom diagnóstico, combinado com a implementação de uma boa prática, pode contribuir significativamente com a redução das perdas e no faturamento como consequência. É preciso fazer de 2019 um ano de superações em todos os sentidos, de vendas à redução de perdas. Portanto, mãos à obra.

 

*É presidente da Associação Brasileira de Prevenção de Perdas